Ventinho
O vento suave adentrou pela janela e acariciou levemente a cortina similar a como uma pessoa já acariciou milhares de vezes o mesmo cachorro tomando sol deitado num chão confortável de madeira. Como um bebe acordando e já entoando uma gostosa risada o tecido moveu-se, com uma parte de si ansiando para receber tal carícia. Porém, apressadamente o vento tomou conta de todo o ambiente onde habitava aquela janela espalhando-se completamente por ele antes mesmo do quarto ter tempo de dar-lhe boas vindas, trazendo vida a condição estática das pessoas que lá estavam. Algumas sentiram o vento mais frio, e por isso abraçaram-se mais forte; algumas sentiram suas mechas mexidas pelo suavemente pelo vento, apenas o necessário para despertá-las de um transe de muitas segundos, minutos ou horas, pois onde a mente estava o tempo pouco importava; e em algumas o vento fez um carinho abaixo dos olhos, uma carícia garantindo a elas que poderiam chorar, no aguardo de um instante que não parecia chegar. Um instante adormecido desde quando começou a existir no topo de uma árvore milenar cercada por uma floresta em chamas, que até hoje resistia fortemente a elas. Seu casco forte impedia as chamas de queimá-la, sua seiva grossa impedia as brasas de se espalharem… Mas a casca tornou-se frágil, quebradiça, seca como pó. Quando a seiva tornou-se rala como o vento. E o vento, ele mesmo, levou uma faísca a árvore. A faísca fez o que lhe é de responsabilidade fazer, e criou uma brasa, e o fogo espalhou-se como se sempre estivesse ali, adormecido, e agora fora finalmente acordado. Finalmente as chamas ardia e aquele instante que há tantos milênios jazia despertou tal qual a chama, enquanto a árvore caia deitando-se no terreno que sempre fora seu de direito, na terra arrasada onde há muito tempo foi decidido que iria cair. E o mesmo vento que queimou a árvore trouxe aos ouvidos de todos no quarto o barulho fino e contínuo tão temido por todos ali, calados e inertes esse tempo todo por medo que ele chegaria. O médico abriu a porta, entrou no quarto e anunciou “Horário de óbito: Duas e quarenta e quatro da tarde”.

Bom texto :)
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