falta

 Me surpreende achar um absurdo eu estar mais sem rumo na vida agora, com 33 anos, medicado e em tratamento, do que aos 21, dormindo quase toda semana em uma calçada, bebendo antes de sequer os ponteiros do relógio darem uma volta. Achei absurdo, achei infantil, achei fantasioso ao ponto de destruir o que sobrou de percepção da realidade que eu tenho após a pandemia. Como podia aquela casca ao frangalhos constantemente fugindo de tudo que compunha ela mesma, no final das contas, estar um tanto melhor que agora, 12 anos depois, numa situação onde todos disseram que seria tudo mais fácil, que eu conseguiria finalmente triunfar ou ver os caminhos para saber onde chegar?

Como podia ser que eu com 21 anos, cansado de programar, chorando sem saber o que fazer, desesperado telefonando para conhecidos sobre se sequer havia a possibilidade de eu viver de escrita? Eu. Um escritor. Hah. Na verdade: Eu, qualquer coisa. Mas isso é assunto pra outro texto, pra outro deleite, outra enxurrada de pensamentos aqui. E aqui chegamos. Já dei aula, já programei, já pintei, já fui designer, já levantei parede (3 dias, mas, ei, eu fui pago) E arranjei emprego como suporte de TI por telefone. E um ano e meio depois já não o era mais. E agora....

Agora estou perdido. Mais que o bêbado dormindo na calçada, no bar, nos bancos da universidade. Mais que os jovens esperançosos recém entrando em seus novos cursos, empolgados com o desconhecido que há por vir. E ainda fica a pergunta: como pode eu, em tratamento, medicado, me sentir tão mais perdido que o eu bêbado sujo? Como poderia um barco recém cuidado ficar mais perdido no mar do que um caindo aos pedaços?

Me falta bússola. Me falta mapa. Me falta o X onde há o tesouro. Me faltam os ventos. As correntes marítimas. Os tão esperados faróis.

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