Texto
O vídeo tocando não me ajuda a escrever, então imediatamente eu o pauso e volto a aba do texto
O texto, assim como tantas outras coisas na minha vida, não começou a ser escrito agora. Ele vem desde minutos antes, horas antes, enquanto eu comia duas maçãs pro café da manhã e me iludia que iria passar o dia de hoje desenhando.
Ele vem muitos dias antes, enquanto eu questionava se valeria a pena arriscar começar um curso que eu não poderia continuar ou por não ter mais dinheiro pra isso, ou porque uma parte de mim foi muito mais forte e só largou-o na sarjeta, ou na verdade ela largou uma parte de mim mesmo, mais uma como tantas outras a entupir os bueiros da minha mente no futuro, algum dia
Ele vem de meses atrás quando, deitado, questiono o que fazer no desemprego e de onde irei tirar renda. A promessa de não trabalhar com arte vem a minha mente com toda força, como também veio a de quando eu chorei antes de sequer aceitar que podia ir para a entrevista do meu emprego anterior
Ele vem de anos atrás. Segundo período de design gráfico, e uma vaga aparece no escritório onde um amigo de infância trabalha. Fico arrumado, mais bem vestido do que para muito primeiros encontros que tive durante a vida, sentado na porta de casa, os pés amarrados um ao outro e também ao chão por algo muito mais forte do que os cadarços do sapato novo comprado apenas para isso
Ele vem de décadas atrás. A mangueira faz uma sombra enorme enquanto passo por ela, pernas minúsculas, pés quase não conseguindo lidar com a altura ínfima que a grama tem, porque estava correndo mais rápido do que nunca havia corrido na vida, desengonçado e mal acostumado com o corpo de um metro e dez. Cai no chão de cara, sem saber o que fazer, exceto que precisa continuar a correr. Correr o mais desesperado que puder. O chão É lava, e eu não posso derreter até conseguir chegar onde os adultos estão.... Pois logo antes da sombra na mangueira, numa piscina, meu amigo se afogava
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