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 Não consigo descobrir o que falta em mim para ser que nem tantos outros que vejo por ai. Tentando tudo. Arriscando. Que sabem o que precisam fazer e o fazem, independente do que for. Que passam duas horas no ônibus todo dia para chegar ao trabalho e receber o dinheiro que os deixará viver, parcamente, por mais um mês. Não sei o que falta em mim quando comparado a tantas outras pessoas que passaram por situações iguais ou piores a minha, quais escolhas elas fizeram, quais coisas conseguiram enxergar, o que lhes foi revelado para poderem acreditar serem dignas de poder lutar por suas vidas, lutar para melhorá-las, lutar para poder ver o próprio sorriso por mais um dia. O que os torna capazes de seguir qualquer rotina que lhes possibilita qualquer mínima coisa para viver. O que os impede de abrir mão, de desistir no meio do caminho a um objetivo ou até mesmo desistir do caminho em si. Uma parte de mim só acredita ser extremamente mimado. Menino de prédio. Extremamente egocêntrico. Que é especial, mas as pessoas não conseguem enxergar isso nele. Outra parte acha que sou especial. Negativamente. No lado oposto do espectro do especial. No lado repugnante, cruel, nocivo. Quão perto desse lado eu estaria se fosse mesmo mimado? Quão perto desse lado eu estou por pensar o que eu penso, por ver violências sem nome cometidas por mim a todo momento, mesmo sem jamais perfoma-las? O quão bom eu sou por apenas não fazer nada de errado? Eu sequer posso dar-me o título de bom por não fazê-los? Alguns cristãos muito se flagelam só por pensarem no pecado, o quão perto eu estou disso? Será que existem passos a tomar que serão benéficos a mim? Ou será que no final tudo acabará sucumbindo perante o plano do que sempre deveria ser, inevitável, tão inevitável quanto a morte?

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