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Idéias que nunca viram o sol, o luar, ou sequer as nuvens cinzas de um dia nublado. Jamais foram tocadas pela luz vindoura de uma estrela extremamente distante, luz que sequer representa o estado atual de onde partiu. Ideias fragmentadas, distorcidas e obliteradas pelo tempo, pela dúvida, pelo cansaço, pela falta de espaço. O que eu daria para poder me dedicar a qualquer uma delas? Quanto otimismo eu preciso para poder me aplicar? Mais quantos dias sem nada de concreto, sem chão, desprovido de possibilidades, são necessários para enfim a realidade ser tanta que eu comece a andar?
Eu sei, eu tenho noção que vou me fuder. Mas nem isso parece me motivar, tirar-me do marasmo, desse lugar. Os remédios melhoraram muito muitas coisas, eu sei, o papel sabe, o lápis sabe, mas não consigo me mexer, não consigo me perdoar, não consigo perdoar, não consigo me livrar ou quebrar essas correntes que brilham num calor eterno, cruel e voraz, enterrando-se mais e mais em minha carne, em busca de algo que nunca vai achar, buscando algo que não parece existir, que minhas mãos cobertas de cicatrizes por tentar arrancá-las em vão já não sabem o que são dedos, carne, ossos ou tendão.
Busquei tanto em tantos lugares por redenção, em rimas pobres, em sorrisos sinceros, em olheiras, em suspiros de alívio, nas palavras de outros são capazes de enxergar aquilo que jamais consegui ver. Já sai de onde estive por muito tempo, já movi essas correntes de lugar, arrastando aos poucos, letra por letra, rabisco por rabisco, a cada momento que passo fora da cama antes do meio dia, a cada ônibus, a cada passo dado para qualquer lugar, uma enorme parede para outro lugar. E, ainda assim, não é o suficiente. Nunca parece o suficiente.
E, ainda assim, um monstro voraz me possui, me acorrenta, me degenera, com seu hálito suplicando forçadamente para que eu fique sempre de joelhos na brasa; Hálito podre, fétido, saído de um espetáculo repleto de cadáveres, cada qual mostrando seus machucados, suas pústulas, seu ninho de vermes há tanto tempo cultivado, inevitavelmente. E, ainda assim, alimentados por tanto orgulho, orgulho o suficiente para poderem dizer "pelo menos isso é meu". Tenho nada para chamar de meu, exceto palavras inúteis; não tenho futuro, possibilidades, habilidades, superstições. A não ser que o fato de estar destinado ao eterno fracasso o seja.
Não parece ser. Não sei daonde tirei minhas poucas vitórias, que rapidamente viraram derrotas. Rapidamente escaparam pelos meus dedos tão facilmente, deixando apenas a mesma sensação do refrigerante ao escapar do copo em direção ao chão; pegajoso, vulgar, a espera da água que o venha limpar. Mais uma rima patética. Mais tempo esperando poder andar. Percebi que a raiva agora me serve de nada. O que as pessoas tanto fazem "no poder do ódio" a mim é uma possibilidade que não existe mais. só me resta o chão coberto de lama onde posso deitar.
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