un nya
eu devia estar escrevendo há muito tempo, querido leitor. meu xuxuzinho. ao invés disso, fiquei matutando e enrolando e piorando bastante todos os nós de minhas caraminholas, meus pensamentos, minha cabeça, minha alma. ao invés disso, fiquei mexendo nos dedos do pé e nas suas unhas até descobrir novas unhas abaixo das antigas, que talvez não deveriam mais estar lá ou talvez estavam sendo um grande amigo mais velho dando a elas o tempo necessário para amadurecer e encarar o mundo. e também, como um minerador, armado com minha picareta no formato de uma pequena tesoura, encontrei pele; pele nova, pele ressecada, pele velha, um pequeno bolo de pele… se você fizer o mesmo que eu sabe bem do que estou falando. E, por fim, achei o sumo, o famoso, e sinto o seu cheiro de ferro subindo, me fazendo virar levemente os olhos: sangue. Ele mesmo. Esse danado. Desculpa, meu xuxuzinho. Mas essas são minha intimidades, e muitos se cansam de dizer por horas, dias, semanas e anos, que artistas devem se expor; e não que eu tenha muito mais do que isso. Não me menosprezando, claro; nalguns dias me sinto raso, mas noutros sou mar adentro. Resta saber o que tanto tem nesse mar, e agora já sabes um tanto: unhas, cutícula, pele, sangue. Apenas dos dedos. Engraçado isso, ser apenas dos dedos. Pequenas tesouras e cortadores de unhas. Mais engraçado é isso ocorrer desde sempre, desde do que, até cinco anos atrás, era minha mais antiga memória. Um garoto de seis, sete, oito anos de idade, constantemente arrancando suas cutículas, roendo suas unhas, andando cabisbaixo. Certa vez me disseram que isso tem um nome, um termo, como se fosse uma doença, uma síndrome, algo não natural (um breve parêntese pois acabei de tirar um enorme pedação de cutícula e agora estou mastigando-o; só retirá-lo não tem graça). O hábito de arrancar o próprio cabelo e comê-lo eu sei que tem um nome próprio. Sei também que arrancar pedaços da pele e roer unhas são comorbidades disso. Mas nunca vi um nome apenas para isso. Não há nome para meu companheiro fiel de 25 anos eternamente comigo. Talvez eu devesse chamá-lo de Jorge.
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