#14: Transformações ocasionais catastróficas
Com mil perdões a Clive Owen, Julia Roberts, Nathalie Portman e Jude Law, ou Judio Lei como eu gosto de pensar as vezes. Faz muito tempo que não escrevo. Um mês, sipá. Mesmo coisas pequenas, nano coisas, ou até o que vai só dissipar-se na corrente elétrica do meu sistema nervoso e, com sorte, se tornará uma memória pra outro dia ou pra outro tema, uma união de fonemas abortados a nunca sentir as vibrações de minhas cordas vocais e tampouco das moléculas do ar que constantemente imploram para serem simplesmente deixadas em paz, as pobres coitadas. Ouvi algo esse final de semana. Lamentavelmente não foi ao vivo, não pude sentir esses tais fonemas em questão chegando e me acertando com luvas de pelica, me provocando para um duelo entre seu significado e meu mundo como o entendo. Ouvi-os como um sussurro; fone de ouvido só de um lado, os rascunhos abandonados a própria sorte tanto em zeros e uns no computador quanto na pilha de papeis segurados pela prancheta, essa prancheta os impedindo de simplesmente sairem voando pelo quarto seja por um vento qualquer ou por um gato saltando e passando como ventania para pular pro segundo canto mais alto do quarto…
Só uma distração no momento; não sinto que estou escrevendo bem. Não importa.
O sussurro era um grito vindo de um auditório, uma resposta. Seguida de outra resposta; E uma série de perguntas; E a resposta que me acertou em cheio. “I worry that I’m gonna kill my mom”. Minha mente foi desarmada, os pedaços maiores dela desesperados por não conseguirem segurar a tempestade causada pelo imprevisto que jamais devia ter vindo enquanto assisto um stand-up de uma lésbica caminhoneira dos Estados Unidos, que respondeu a resposta, que eu não consigo lembrar em inglês, mas algo como “wow, realmente, o seu é real”. Desesperado, eu voltei no tempo. A mente ainda numa desordem, os impulsos que conseguiram ser mais fortes dos eternos impulsos com que eu convivo desde sete anos de idade, impulsos que nenhum criança de sete anos de idade deveria ter. Voltei no tempo e ouvi a primeira pergunta “quem aqui tem TOC?”. Depois veio a pergunta “qual? contar coisas? mania de fazer algo?”. Bom… a resposta foi o sussurro, pesado como um grito:
“I worry that I’m gonna kill my mom”
Desespero. Google. Preciso ir no Google. Preciso de duas horas de pesquisa. Preciso confirmar minha negação. Preciso manter armada a armadilha que me tortura há quase três décadas, manter o arame farpado agarrado na minha carne implorando para arrancar a derme epiderme músculos artérias e o ferro no sangue - o carvão ardendo eternamente dentro de mim.
Minha noia de precisar de duas horas de pesquisa se reduziu a ler quatro linhas. Não respirei aliviado, já haviam dito muitas, mentira, porque eu raramente falo do que precede o silêncio que já tanto escutei, observei vivenciei das pessoas que me ouviram, o muro de concreto levantado simplesmente porque o ar fora deixado em paz, o ar em paz que as vezes é a paz interior e as vezes é o caos implorando para explodir do mesmo que o arame farpado implora pra me machucar, e me machucar de uma maneira bem intrusiva: “I worry that I’m gonna kill everybody”. Impulsos de anos. Décadas. Que eu queria poder desenhar na parede todos os dias. Impulso de violência, de estrago, de tratar o corpo humano como um saco de batatas sendo esmagado no meio fio as duas horas da tarde em plena terça feira. De pintar as paredes de vermelho, empapar o ar com cheiro de ferro, pisar em falso e machucar meus pés num osso quebrado, sentir o calor do sangue na minha cara fugindo desesperado daquele que o tirou do enorme útero que é o sistema circulatório. Morder o pescoço de alguém. Destruir a traquéia de um filho da puta. Dar um tapa no ouvido de um transeunte cututar seus olhos com meus dedos e estragEu á-lo como uma fusão de Avant-gard Jazz e grindcore.
Vivi meu ensino fundamental todo sofrendo bullying e, meu triste leitor que leu até aqui, minha vontade era de decorar aquela escola para um natal fora de época. Meu natal fora de época não teria árvores; Meu natal fora de época não teria o que quer que seja aquele quase chale de enrolar na árvore de natal; Meu natal fora de época seria apenas vermelho. Ocasionalmente com marrom das fezes a escapar do intestino um tempo após a morte daqueles filhos da puta. Enfim. É. Todos os dias. Todas as horas. Todos os minutos. Não é exatamente um ímpeto, uma vontade. É só suficiente para causar uma catástrofe em mim.
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